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Todas
as notícias da snc
sôbre a Suiça e seus
Cantões pode-se
encontrar na "caixa de
notícias". >>>
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Roberto
Athayde - (retrato de seu pai Austregésilo de Athayde)
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Nem só
de "Apareceu a Margarida" vive um grande intelectua!
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Nossa entrevista com Roberto Athayde no Leblon
(RJ)
Roberto Athayde, dramaturgo e escritor. Filho do jornalista, cronista
e orador Austregésilo de Athayde, que foi presidente da
Academia Brasileira de Letras por trinta e quatro anos, e de Maria
José de Queiroz Austregésilo de Athayde, mais conhecida pelo
apelido de Jujuca, e neto do engenheiro José Joaquim de Queiroz Júnior,
que foi o pioneiro da indústria siderúrgica no Brasil.
entrevista e fotos: ©snc/ Arlete F. Kaufmann
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Suas obras: Apareceu
a Margarida (seu grande sucesso no teatro), O
Jardim da Fada Mangana (contos), O
Homem da Lagoa Santa (poesia e contos), Crime e Impunidade (peças),
Confissões do Comissário de Bordo Vladimir de Braniff (romance), Brasileiros
em Manhattan (romance), Abracadabrante
(ensaios e poemas), Jonathan´s
Friend (romance), Carlota
Raínha (peça histórica),
Dom Miguel Rei de Portugal (peça histórica), O
Bicho Carpinteiro (romance), As
Peças Precoces (peças). A
Velha Coroca (Infantil) será lançado no Rio no dia 30/05
pela Global Editora.
Estreará também em
28/05/07 seu curta metragem Areias
Sagradas com Marília Pêra e Jonas Torres, no Canal Brasil.
Veja os cartazes de suas
obras que estão sendo vinculados no momento:
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Quais são os seus projetos
atuais?
Eu sinto um grande desejo de
fazer um pouco do mesmo que o meu pai fazia, ou seja, colaborar
com a imprensa. É claro que eu nunca vou ser um jornalista como
meu pai foi, pois ele escrevia três ou quatro artigos por dia, de
uma assiduidade impressionante. Foi um grande jornalista, e nisso
não pretendo me comparar a ele. Mas gostaria muito de ressuscitar
uma certa coluna dele. Durante décadas ele escreveu uma coluna na
revista O Cruzeiro, com
o nome de Vana Verba, que quer dizer em latim ‘palavras vãs’.
Esse título foi escolhido pela minha mãe. Essa coluna foi
escrita durante 40 ou 50 anos e eu gostaria de continuá-la num
jornal. Logicamente, como ele morreu há 13 anos, já não tenho
acesso aos Diários Associados e também sou muito identificado
como teatrólogo. As pessoas provavelmente acham que não sou
capaz de contribuir para um jornal ou revista. Estaria até
disposto a colaborar experimentalmente.
Li o livro O
século de um Liberal, sôbre a vida de seu pai, escrito pelo
seu cunhado Cícero Sandroni e sua irmã Laura Constância A.de A.
Sandroni e fiquei encantada com a história de amor entre seu
pai e sua mãe, além logicamente, da rica e inigualável vida
jornalística de Austregésilo de Athayde. Você chegou bem
depois?
Quando minha mãe morreu eu
já estava com 34 anos e quando meu pai morreu eu tinha 43 anos. Há
vários fatos fascinantes sobre a história de amor deles que não
estão no livro. Por exemplo, como meu pai era Constitucionalista
e foi preso duas vezes por Getúlio Vargas pelas coisas que
escrevia contra a sua ditadura, quando quis casar-se com minha mãe,
ele estava na Argentina exilado na época da Revolução de 32,
então ele pediu ao Getúlio Vargas licença para vir ao Brasil
casar-se e levar a esposa para a Argentina, e esta licença foi
concedida. Passados alguns anos, quando o Getúlio já era
presidente eleito no começo dos anos 50, ele foi eleito pela
Academia Brasileira de Letras e meu pai era um acadêmico. Então
meu pai ficou um pouco constrangido pois teria que encontrar com o
Getúlio no chá da Academia, sendo que, apesar de ter feito suas
críticas em nível civilizado, pois meu pai atacou o Getúlio,
assim como os outros ditadores, os de 64, mas de uma maneira
intelectualizada, mas nem por isso deixava de ser seus amigos. Ele
era formado também nas Agulhas Negras na Escola Superior de
Guerra. Tinha como amigo o coronel Euclides Figueiredo , que era
um liberal, aliás foram exilados juntos, e meu pai conheceu o
Presidente Figueiredo, que viria a ser um ditador, quando ele
tinha apenas cinco anos de idade, e foi padrinho do teatrólogo
Guilherme Figueiredo irmão do Presidente Figueiredo. Bem, mas
quando tiveram que se encontrar no chá da Academia, ele
ficou surpreso pela gentileza e amabilidade do Getúlio, que disse
ao meu pai: "naquela época em que você se casou, eu
deixei você vir ao Brasil para casar-se porque um dia eu estava
passando na praia do Botafogo e vi você namorando sua mulher e
fiquei comovido", disse Getúlio! (neste momento da
entrevista a voz e os olhos de Roberto de Athayde ficaram
embargados pela emoção)
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Roberto Athayde - (retrato de sua mãe Dona
Jujuca)
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Como era a relação de vocês?
Não era uma relação fácil.
Os dois tinham uma personalidade muito forte.
Como era a sua família?
Era completamente fleumática.
Eles detestavam intimidade, era uma coisa completamente
intelectualizada, não era uma relação íntima. Eles não
demonstravam nenhum interesse pela vida privada dos filhos,
cultuavam a liberdade de todo mundo, cada um fazia o que queria
com tanto que não atrapalhasse os outros. Não se preocupavam nem
um pouco com o que a gente estava fazendo, não tinham nenhum
sonho para a vida da gente. Sabe, essa coisa de pais, de sonhar e
esperar algo dos filhos? Não havia cobrança de nenhum tipo, não
faziam questão que a gente fizesse nada e não sonhavam
absolutamente nada para a gente! Então a impressão que dava era
que eles eram totalmente indiferentes aos filhos, mas não era
verdade, eles tinham muito afeto, mas era num outro nível, pois
eles realizavam seus próprios sonhos, não tinham nenhuma
necessidade psicológica de esperar realização através dos
filhos. A minha mãe se definia como ‘escrava abjeta’ do
marido, ela era muito irônica, era uma secretária impecável,
datilografava os artigos do meu pai em alta velocidade, e às
vezes eu com apenas onze anos substituía a minha mãe e
datilografava os artigos que ele ditava direto sem hesitação e
depois ele corrigia para os artigos saírem publicados no dia
seguinte. Apesar de não ter sido jornalista, tenho uma experiência
visceral através dos artigos do meu pai.
Como filho de uma pessoa tão
admirável, você sentiu que não poderia realizar-se à altura ?
Não, eu sempre fui um
ego-maníaco. Sómente sentia isso em relação ao gênio que meu
pai era para a oratória.Quando eu era garoto e lia os artigos
dele, mesmo quando lia sem entender nada, eu sempre achava que
poderia fazer melhor, exceto quando eu ia com ele para as funções
onde ele tinha que discursar e quando ele começava a falar eu me
sentia massacrado e completamente incapaz de fazer o mesmo, como
até hoje eu não tenho este jeito performático que ele tinha,
esta habilidade. Ele gostava de falar e falava muito bem de
improviso. Eu posso fazê-lo mas não sou um expert.
Muita gente poderia dizer que é medo, até pode ser, mas às
vezes tenho medo de começar a falar e não parar mais!
Quando eu era criança eu
tinha ideais muito elevados, queria escrever como meu pai, que era
o Presidente da Academia, mas também como Machado de Assis, que
estava acima dele, que era o fundador. Depois pensava: ‘quem está
acima de Machado de Assis’? Só Camões! Então, com dez,
onze anos de idade o meu problema psicológico foi ficar obcecado
por Camões e comecei a decorar Camões e aquilo virou em problema
grave, pois eu era alienado na escola e fui expulso de três colégios;
ao invés de estudar, eu recitava Os Lusíadas. Os professores achavam que eu estava ficando maluco, e
de certa forma estava mesmo. Pois quando fui expulso do terceiro
colégio, que eu achava uma chateação, meus pais desistiram de
me educar, aí eu fiquei livre para estudar música, piano e línguas.
Foi assim que pude a escrever uma peça importante aos 21 anos de
idade. Com 17 anos fui para os Estados Unidos e não queria voltar
mais, então a minha primeira língua literária foi o inglês,
escrevi muito em inglês antes de começar a escrever em português,
pois achava que não voltaria mais para o Brasil.
Fale do seu começo.
Bem, eu nasci no Rio de
Janeiro, (risos) em novembro, no signo de Sagitário, e já com 17
anos fui para os Estados Unidos., nessas trocas de família
para estudantes, pois apesar do amor de meus pais, eles eram de um
caráter muito forte e de uma presença sufocante para
mim. Meu pai era enormemente egocêntrico e minha mãe idolatrava
meu pai. Ele preenchia todos os espaços. Adorei ter ido para os
Estados Unidos naquela época, estudei na Universidade de
Michigan, queria me tornar compositor, mas quando vi o alto nível
dos alunos da escola, senti que não teria a mesma capacidade, a
mesma facilidade que tenho com a literatura.
Conte-me sobre o seu livro Brasileiros
em Manhattan.
Esse livro não tem nada a
ver com a minha experiência pessoal, é um livro de ficção, de
uma certa forma chocante. sobre os brasileiros (personagens de meu
romance) que viram garotos e garotas de programa. Eu pessoalmente
fui viver numa família metodista, em Michigan. Quando
eu disse a eles que não acreditava em Deus, foi um escândalo,
quase que eles me mandam de volta para o Brasil! Depois, quando viram
que eu era músico e comecei a cantar no coro músicas
protestantes, tentaram me convencer durante seis meses sobre a
existência de Deus, aí ficou tudo bem!
Você vinha sempre ao
Brasil?
Pouco, mais vinha. Nos
primeiros seis meses fiquei em Michigan, depois fui fazer um curso
de língua e literatura francesa na Sorbonne e, em maio de 68, no
período da revolução, eu morava na cidade Universitária em Paris. Depois
voltei a Michigan por um ano para estudar música. Meu próximo
passo foi mesmo pender mais para a literatura e escrever, já que
isto já era a veia da família. Em 1969 abandonei a Universidade
e fui morar nas Bahamas onde escrevi um romance que está
publicado em inglês. Fui
morar em Nova Iorque, foram ao todo uns quatro anos, e eu vinha ao Brasil geralmente
para o Natal. Em 1971 estava no Brasil e comecei a escrever em português. Meus
pais, quando nós éramos crianças, desencorajavam qualquer
manifestação exibicionista, aquela coisa de criança prodígio.
Como foi para você voltar
ao Brasil depois deste tempo fora?
Foi de certa maneira um
choque pois eu estava meio alienado da situação política no
Brasil. É claro que eu sabia que o Brasil tinha se tornado uma
ditadura desde 64. Em 1971, com 21 anos, a fusão dessa ditadura
militar e a minha história de aluno expulso da escola pela
terceira vez, a opressão que eu senti nos colégios, a mesma
opressão que causou o meu total desajuste escolar, isso tudo deu
origem a Apareceu a
Margarida. Eu identifiquei a figura do professor com a figura
do ditador e eu também queria muito eliminar a quarta parede do
teatro, ou seja, envolver o público, sem que os atores os
obriguem a participar, pois o público pode se sentir injustiçado,
humilhado e constrangido. Senti que deveria criar papéis em que
tornassem inerente ao público atuar ou não fazer nada. Que
respeitassem a passividade do público se ele quisesse ser
passivo. Então a Margarida
foi a centelha. Eu descobri que a única maneira de envolver uma
platéia é de dar a ela um papel que permita a passividade e, ao
mesmo tempo, ser ativo.
No momento em que a Dona
Margarida diz à platéia "eu sou a nova professora de
vocês", eles (o público) já estão incluídos no papel de
alunos. E ela passa a peça inteira dizendo que eles não podem
dizer nada, e como a personagem é muito contraditória também
joga muitas invectivas, faz perguntas e acusações ao público.
Mas, se eles quiserem, também podem responder.
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Cartazes antigos "Apareceu a margarida"
em sua sala.
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Você não aceitava as
regras escolares?
Não era só isso, eu tinha
também problemas com os colegas. Fui criado entre irmãos bem
mais velhos e meu pai tinhas 52 anos quando eu nasci, e os amigos
do meu pai eram membros da Academia Brasileira de Letras, ou
candidatos. Imagine, quando criança eu conversava com os
escritores Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, o
Professor Silva Mello, isso era muito esquisito para o convívio
normal de uma criança.
Você fez análise?
Quando eu estava para ser
expulso de uma das escolas, houve uma tentativa, apesar de meu pai
não acreditar absolutamente nada sobre a psicanálise. Achava que
psicólogo era só para tirar o dinheiro dele. Ele tinha uma
biblioteca enorme e os únicos livros de psicologia que havia nela
eram de um tio dele, o Prof. Antônio Austregésilo, que foi um
dos primeiros grandes neurologistas do Rio de Janeiro. A escola de
alguma maneira forçou minha mãe a buscar uma psicanalista para
mim, mas eu fui apenas a duas sessões, porque eu não queria
falar de intimidades com ela, e recitava Camões todo o tempo.
Então, de uma certa maneira
a peça Apareceu a Margarida
foi a sua análise de vida?
Com certeza, eu soltei muito
fel, é uma peça tremendamente agressiva, não apenas funcionou
como uma auto-análise como também ainda contribuiu com o feedback do imenso sucesso imediato. Um ano depois foi montada na
Argentina e após mais um ano Marília Pêra estreou no Brasil.
Foi um sucesso em Paris e virou um sucesso mundial, inclusive
dirigida por mim e foi parar na Broadway. Logicamente, esse
sucesso me liberou da imagem do meu pai, eu já não era só o
filho do Austregésilo de Athayde.
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"Apareceu a Margarida" foi minha
princesa Isabel!
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Apareceu a
Margarida
teve alguma produção em alemão?
44 produções em alemão ,
nos anos 70 e mais ou menos umas 40 em português (7 em Portugal).
Mas o meu problema mais grave é que Apareceu
a Margarida teve tanto sucesso que acabou bloqueando o resto
do meu trabalho. Eu tenho 27 peças de teatro, tenho mais
interesse no momento que sejam produzidas outras peças minhas.
Seus irmãos vivem no
Brasil?
Sim, meu irmão vive
em São Paulo
e é um executivo de televisão; foi Diretor Comercial da Rede
Globo e a minha irmã vive no Rio de Janeiro e escreve sobre
literatura infanto-juvenil.
E como vive o Roberto Athayde
de hoje?
Eu faço muito esporte
na praia, alongamento, já fiz muita aula de dança, cuido do
corpo pois cultivar a parte física é muito importante quando se
leva uma vida intelectual! ‘Mens sana in corpore sano’.
Qual seu grande medo?
Não conseguir terminar as
minhas obras, que aliás são sempre projetos ambiciosos. Peças
históricas, obras filosóficas...
Qual seu grande desejo?
Continua sendo me libertar
do estigma do Apareceu a
Margarida e conseguir fazer consumir o resto de meu trabalho,
que é enorme e que o sistema obstinadamente rejeita: toda e
qualquer outra coisa que não seja Apareceu
a Margarida! A única coisa minha que foi sucesso, fora essa,
foi a adaptação que eu fiz, O
Mistério de Irma Vap,
com Marco Nanini e Ney Latorraca, que foi um enorme sucesso no
teatro.
Se você fosse pai você
educaria como seu pai?
Boa pergunta. Acho que sim!
A única coisa é que talvez não seria tão indiferente à psicanálise
como foi meu pai, pois se eu tivesse um filho, eu o estimularia a
uma psicanálise, se necessário.
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