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Os déficit dos Estados Unidos e a

chegada do Euro

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matéria: por miguel otero

em português: arlete f.kaufmann

Muito se falou nos últimos tempos nos meios de comunicação sobre a estrepitosa caída do dólar, mas o que não se fez é explicar as razões desta baixa. A moeda americana está tão baixa porque assim interessa a Reserva Federal dos Estados Unidos (Fed) para paliar os déficit que tem seu país, mas a principal causa do declive do dólar se encontra na chegada do euro, no que o economista Robert Mundell qualificou como o maior ataque a hegemonía monetária dos Estados Unidos nos últimos trinta anos. Esta não é a primeira vez que o dólar sofre uma depreciação, já que caídas similares se deram aproximadamente uma vez cada década: 1971-1973, 1978-1979, 1985-1987 e 1994-1995.Mas naquelas ocasiões, o bilhete verde não tinha rival. Aos inversores não lhes restava outro remédio que esperar a tempos melhores, algo que mudou radicalmente com a chegada da união monetária européia.

Para entender como é possível que os Estados Unidos seja o país mais poderoso do mundo, ao mesmo tempo, o maior devedor, com uma dívida externa superior aos 7 bilhões de dólares e um déficit comercial e público rondando os 500.000 milhões, há que explicar o conceito de senhorío monetário (seigniorage) internacional do dólar. Os Estados Unidos são os distribuidores da moeda internacional por excelência, tanto como meio de troca, de reserva e de contrato, e esta faculdade lhes oferece um "privilégio exorbitante", como disse um dia Charles de Gaulle. Imprimir um bilhete de um dólar custa aos Estados Unidos 3 céntimos, mas com esta nota, com um valor nominal de 1 dólar, pode comprar produtos por um valor real de outro dólar. É dizer, quando os Estados Unidos importam (o qual fazem com assiduidade) conseguem uma apropriação no valor 33 vezes mais alta que o valor inicial. Como explica Guglielmo Carchedi, desde do ponto de vista estritamente econômico, aos Estados Unidos não interessa exportar. Muitas empresas exportadoras norte americanas iriam a bancarrota, mas a apropriação do valor para o país sería imensa.

De todas as formas, as vantagens do senhorio monetário internacional não se limita ao campo comercial. Onde os Estados Unidos sacam o maior benefício é no pagamento de sua dívida externa. Ao ser o dólar a moeda internacional, o mercado dos bons do tesouro mais líquido e mais extenso do mundo se encontra nestes momentos em Wall Street. Isto quer dizer, por um lado, que os Estados Unidos é o único país do mundo que pode pagar suas dívidas em sua própria moeda (daí que a Fed, como disse, lhe interessa que o dólar esteje baixo), e, por outro, que ademais podem decidir por sua própria conta o tipo de interesse que hoje por hoje, como todo o mundo sabe, está a baixo históricos, rondando os 2%.

Resumindo então, o senhorio internacional do dólar faz que os cidadões estadounidenses possam ser os maiores consumidores do mundo, como demonstra a balança comercial de seu país, e os mais endevidados, com uma dívida privada que atualmente representa os 110% dos ingressos da unidade familiar, o que é o mesmo, que cada americano deve em média uns 20.000 dólares. E o leitor se perguntará: como isto é possível?, como pode estar os Estados Unidos tão endividados? ou melhor: quem e porque oferece tanto dinheiro aos estadosunidenses? As respostas a estas perguntas se podem encontrar em dois claros exemplos:

Os maiores credores dos Estados Unidos no momento são os bancos centrais do leste asiático, principalmente Japão e China, como também Hong Kong, Coréia do Sul e os investidores europeus não ficam atrás. A estes países, que são os maiores exportadores do mundo, lhes interessa que o dólar esteja alto e que suas moedas estejam baixas para exportar mais. E por isto que os bancos centrais aisáticos contam com cerca de 1.6 bilhões de dólares em reservas, aguentando assim a nota verde, que de outra forma se desabaria já totalmente. Uma empresa como a Sony vende seus produtos em dólares, a moeda internacional, mas este dólares não vão parar no Japão, já que se não fizessem, o yen se apreciaría em excesso e a Sony perderia suas vendas competitivas como emprêsa exportadora. Logo, a maioria dos dólares das multinacionais asiáticas não fluem seus países de origem, senão caem no sistema bancário estadounidense para financiar a dívida externa deste país.

O segundo exemplo da centralidade do dólar , como moeda internacional que outorga numerosos privilégios aos Estados Unidos, é a venda de petróleo. O petróleo se vende no mundo inteiro em moeda americana, o que por sua vez é uma grande vantagem, porque assim as autoridades estadounidenses não tem que estar pendentes do tipo de câmbio nem tem que acumular grande quantidade de reservas em moeda estrangeira, como é o caso dos outros bancos centrais. Mas, não somente isto. O ciclo mesmo da venda de petróleo é de claro beneficio para os Estados Unidos: os países exportadortes industrializados como o Japão, Alemanha ou França exportam seus produtos aos Estados Unidos, o maior consumidor, que paga em dólares de 3 cêntimos. Estes dólares são usados depois pelos países exportadores para comprar petróleo aos países árabes da OPEP, que por sua vez voltam a utilizar estes dólares na Wall Street para financiar a dívida externa dos Estados Unidos, no que se conhece como a reciclagem dos petrodólares.¨

Os dois exemplos aqui explicados demonstram a hegemonia financeira dos Estados Unidos. O sistema econômico e financeiro mundial está inclinado de tal forma que os Estados Unidos podem consumir e gastar sobre suas possibilidades a custa do trabalho e da economia do resto do mundo. Wall Street funciona assim como um imenso imã que gera tanta inversão que os Estados Unidos se podem permitir ao luxo de desenvolver uma política exterior agressiva, de pretendido domínio militar mundial, como se pode ler no projeto New American Century, pese a ter um déficit corrente crônico anual de 5% de seu PIB, justamente este marco vai mudar com a consolidação da moeda européia. O euro, tal e como predizem muitos economistas, entre êles o mais destacado, Fred C. Bergste, se convertirá em um sério rival do dólar para o rol da moeda internacional e disto deu-se conta prontamente Sadam Husein quando no ano 2000 começou a vender seu petróleo aos europeus em euros.

Não resta dúvida de que a união monetária é o maior ataque a hegemonia financeira dos Estados Unidos nos últimos trinta anos. A União Européia já não é somente um gigante econômico com praticamente o mesmo PIB que os Estados Unidos e projetos como Galileo e o Airbus 380, senão que agora também é um claro competidor financeiro. Quando saiu o euro se vendia uns 80 centavos de dólar e atualmente se avalia acima do 1.30. A progressão da moeda européia foi formidável para os analistas. Seu uso não somente se limita aos 300 milhões de habitantes que formam a eurozona: com a estrepitosa caída do dólar, o euro já está ganhando terreno ao bilhete verde como primeira moeda extrangeira nos países do leste da Europa, na Russia e parte da Ásia, e sua entrada no Oriente Médio não se fez esperar. Iraque já vendia seu petróleo em euros (quiçá por isto foi atacado), Irã está fazendo agora ( por isto é o chefe do mal) e a mesma OPEP já assinalou que não seria descabível vender no futuro o petróleo na moeda da UE, seu maior sócio comercial.

A Fed evidentemente sabe que, com a chegada do euro, senhorio internacional do dólar está em perigo. Os estadounidentes por fim se deu conta de que podem seguir vivendo a custas dos demais e que, como todos os países deste mundo, tem que ajustar o déficit público e o déficit comercial. Históricamente, o país hegemônico, em sua fase de decadência, sempre recorreu constantemente os frutos do sistema econômico que há imposto, mas chega o momento em que os rivais (a UE, a India e China) recuperam o terreno perdido e ao primeiro não resta outro remédio que reformar suas estruturas. A Fed crê que com o dólar baixo aumentaram as exportações estadounidenses e se equilibrará a balança comercial. E a Administração Bush indicou que com seu plano de economia se limará o déficit público em cinco anos. Grandes palavras estas quando a economia americana começa a estancar-se ( e isto que os impostos corporativos estão a mínimos históricos), a inflação espreita, os tipos de interesse tendem a subir, a geração baby-boom dos anos 60 chega a sua idade de jubilação, o conflito do Iraque não está resolvido e a Condoleezza Rice afirma que vão atacar ao Irã.