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O Sr. sempre almejou esta carreira?
Desde garoto fui aconselhado por meu pai a
seguir a carreira diplomática. Meu pai era advogado e economista e fêz
carreira no Banco do Brasil, mas quando era funcionário do Banco chegou
a fazer um concurso no Instituto Rio Branco nos anos 50 mas falhou em
inglês. Eu já muito cedo comecei aprender inglês e francês e
terminei me convencendo da oportunidade e do interesse em fazer a
carreira diplomática. Me formei em Direito ao mesmo tempo que concluí
o Instituto Rio Branco em 1974.
Em algum momento teve dúvidas em ter
ingressado na diplomacía?
Depois que abracei esta carreira nunca tive
esta dúvida. A carreira diplomática é uma carreira difícil, envolve
muito desafío profissional e sacrifício pessoal, mas acho que no
balanço geral é positivo, me sinto recompensado, considero ter feito
uma boa carreira. Tive as promoções no devido tempo, atuei em postos
muito interessantes. Comecei em Moscou, meu primeiro posto.
Depois de seus estudos foi fácil ter a
oportunidade de sair do país?
Na época quando o chanceler era o Embaixador
Azeredo da Silveira, no governo Geisel , ele tinha por política lotar
as embaixadas e o Brasil estava fazendo uma expansão diplomática muito
importante em direção à África, no Leste europeu, na América
Latina. A política externa do Brasil adquiriu assim um contorno de
universalismo, de presença bastante marcante, e nós éramos um corpo
diplomático muito pequeno e era preciso lotar as nossas embaixadas e a
política de então do Itamaraty era logo que o terceiro secretário
apenas formado deveria ser logo removido para o exterior. E a mim me
tocou a Embaixada em Moscou, não por escolha própria mas por
indicação. Mas acho que tive muita sorte pois em todas as funções
fui feliz. No caso de Moscou foi a minha primeira indicação e fui para
lá ainda recém casado, mas foi uma experiência e um aprendizado de
dois anos e meio extraordinário.
Tempo de guerra-fria, não?
Apesar disso, no ponto de vista profissional
tive uma experiência muito rica, pois as relações do Brasil e a
União Soviética de então estavam crescendo muito no âmbito comercial
e econômico e tive bastante oportunidade de trabalho muito
interessante.
Sua experiência na América Latina?
Depois fui para Buenos Aires e aí tive outras
boas experiências durante cinco anos. Foi um periodo muito importante
na vida do país. Cheguei na Argentina em setembro de 1979 com os
militares e saí em novembro de 1984 já no periodo democrático, e ao
longo deste período muitos fatos importantes aconteceram tanto no
relacionamento Brasil e Argentina, onde tivemos a assinatura do acordo
de Itaipú/Corpus, que normalizou as relações e iniciou uma fase de
aproximação muito intensa que depois foi gerar na democracia com o
surgimento do Mercosul. Houve uma situação interna muito conturbada
com o governo militar, houve os conflitos da Argentina com o Chile na
questão do Canal de Beagle e depois com a Inglaterra com a questão das
Malvinas, enfim foi um período extraordináriamente importante na vida
do país.
Qual foi seu próximo passo?
Depois voltei ao Brasil e retornei à divisão
da América Meridional, onde continuei a trabalhar na Secretaria do
Estado em Brasilia, e logo depois fui para o Gabinete do Ministro já
com o Chanceler Roberto de Abreu Sodré, que para mim foi um chefe muito
importante. Foi uma experiência e tanto, pois pela primeira vez eu
trabalhei com um político muito interessante, um homem público. Ele
foi chanceler durante mais ou menos quatro anos e seis meses, foi um dos
que mais permaneceu no Itamaraty, isto foi no governo de José Sarney.
Depois fui ser conselheiro em Londres, e voltei
a trabalhar com meu ex-embaixador em Moscou, Celso de Souza e Silva
também um grande amigo e que, ao se aposentar, foi substituido pelo
Embaixador Paulo Tarso Flecha de Lima, que tinha sido Secretário Geral
em minha época de Brasilia, uma das maiores personalidades do
Itamaraty, um dos diplomatas mais brilhantes que conheci e que prestou
contribuição decisiva para o fortalecimento da presença comercial e
econômica do Brasil no exterior.Cumpriu um papel muito relevante e como
Secretário Geral coube a ele chefiar a Casa em um momento em que o
país recuperou a democracia. Ele operou o Itamarayi em uma
circunstância bastante nova. A gente tinha vivenciado 21 anos de
período militar, e o Itamarayi passou a ser chefiado por um Embaixador
que tinha uma sensibilidade muito clara para a necessidade de abertura
da casa, para o setor privado, para o Congresso, para a comunidade
acadêmica, para a imprensa. Tudo isto foram desafios que a diplomacia
foi vencendo e foram ajustes sendo feitos no dia a dia de nossa
profissão. E o Embaixador Paulo Tarso, que depois foi ser meu chefe em
Londres, cumpriu um papel muito grande nesta parte.
Voltei para o Brasil para trabalhar no gabinete
do ministro, então chanceler Celso Lafer. Veio a crise do impechament
do presidente Collor e o chanceler foi substituido pelo então senador
Fernando Henrique Cardoso que ficou como chanceler e logo depois foi
nomeado para o Ministério da Fazenda, e eu o acompanhei nesta fase
trabalhando como assessor. Foi uma experiência magnífica, apesar de
não ser um trabalho diretamente ligado ao Itamaraty pois não sou um
especialista em economia, mas pude acompanhar os assuntos de perto e
isso foi um aprendizado extremamante rico. Voltei a Londres para ser
ministro conselheiro com o embaixador Rubens Barbosa, um chefe
extraordinário que tive, e lá fiquei cinco anos até 1999 e depois
voltei para o Brasil novamente e fui trabalhar como assessor diplomático
no Planalto já com Fernando Henrique Cardoso na Presidência da
República. Permaneci até o final do governo e depois fui indicado para
ser Embaixador no Uruguai com o presidente Lula já eleito em outubro de
2002, e servi lá até 31 de julho de 2006. Fiquei no Uruguai três anos
e oito meses, minha primeira experiência como Embaixador, em um momento
extremamente desafiante do ponto de vista da nossa prioridade que a
política externa do presidente Lula tem conferido à América do Sul.
Foi um periodo intenso, avançamos nossas relações com o Uruguai e com
o Mercosul e terminada a minha missão por lá o presidente Lula me deu
a honra de me nomear como Embaixador da Confederação Suiça e recebi a
missão de vir para a Suiça com muita satisfação, pois é um país
muito importante, um país com o qual o Brasil tem uma relação antiga
e muito estreita, densa do ponto de vista ecônomico, cultural e
comercial e portanto é um desafio!
Qual a peculariedade da carreira
diplomática?
A nossa carreira diplomática tem a
peculariedade de ser uma carreira em que existe diversidade de trabalho,
e os diplomatas não se eternizam nas funções, ao contrário há
sempre a variedade de funções que se exercem ao longo da carreira. Ora
você faz um trabalho de caráter mais político, ora de uma
negociação econômica, ora está dedicado ao trabalho da cooperação
cultural, da promoção comercial ou da assistência consular . Tudo
isto são facetas importantes na ação diplomática. E hoje a política
externa é abrangente, abarca uma gama de assuntos muito vastos.
Como podemos observar e como o nosso
inesquecível Noel Rosa já bem dizia "A vida é uma escola onde a
gente precisa aprender", o Sr. teve uma bela aprendizagem através
destes anos todos?
Sem dúvida, o Itamaraty tem por norma este
rodízio constante mas também esta reciclagem. Esta reciclagem se faz
de várias maneiras, inclusive com alternâncias de postos no exterior e
missões no Brasil. Mas há ao longo da carreira pelo menos duas etapas
importantes, em que o diplomata é obrigado a fazer curso de
aperfeiçoamento e treinamento. No meu caso por exemplo, fiz ao longo de
minha carreira três cursos que foram muito importantes. O primeiro
quando eu ainda era terceiro secretário, fiz o curso de treinamento de
chefe do setor promoção comercial em Moscou e lá era responsável
pelos assuntos comerciais. Foi muito útil pois justamente na época
estávamos enfatizando muito o comércio entre o Brasil e a União
Soviética. O Brasil abria um mercado importante na União Soviética
para manufaturados e consequentemente importava máquinas e equipamentos
para as hidrelétricas brasileiras.
Depois já em Buenos Aires como segundo
secretário fiz o curso de aperfeiçoamento para diplomatas (CAD), um
curso obrigatório para o segundo secretário com o objetivo de se
tornar requisito para a promoção. Anos depois, fiz o Curso de Altos
Estudos, que é um curso a nível de doutoramento, onde fiz um trabalho
na época sobre a Argentina.
Em algum momento sentiu-se injustiçado?
Absolutamente, não. Sou grato a todos os
chefes que tive pelo estímulo, pela orientação e, sobretudo, pela
confiança. Com todos aprendi muito. De todos só guardo as melhores
lembranças. E sempre confiei muito nos critérios da casa, são
critérios objetivos de seleção, promoção e remoção. O Itamaraty
tem critérios justos.
Quais são os seus objetivos na gestão em
Berna?
Eu considero que cheguei em um momento muito
favorável para o adensamento destas relações. Relações que são
antigas, são tradicionais e que meus antecessores imediatos, todos
êles contribuiram muito para estreitá-las ainda mais.
Interessante que o Brasil e a Suiça até a
visita recente da Conselheira Doris Leuthard não possuíam uma
comissão conjunta para discutir os temas de comércio e investimentos,
e felizmente acho que os dois países chegaram à conclusão sobre a
necessidade de se criar um foro de diálogo bilateral institucionalizado
que se dedique e se debruce sobre estas questões e foi assinado um
memorando de entendimento. Criou-se esta comissão mista de relações
ecômicas e comerciais que vai fazer sua primeira reunião, eu espero,
aqui na Suiça no segundo semestre deste ano.
A visita da Conselheira Federal foi um êxito,
ela marcou muito positivamente a prioridade que a Suiça está
dispensando ao Brasil agora no âmbito desta estratégia dedicada aos
países BRIC. Foi uma visita marco. O Brasil tem uma relação comercial
muito importante com a Suiça, nós temos feito parcerias muito
interessantes aqui na Suiça, uma delas aconteceu logo no início de
minha missão aqui, o que me deu muita satisfação e prazer. Nós
criamos uma parceria entre o Insituto Nacional de Desenvolvimento
Integrado do Estado de Minas Gerais e o Centro Suíço de Eletrônica e
Microtecnologia de Neuchatél. Eu tive o prazer de assinar com o
Embaixador da Suiça no Brasil, Rudolfo Bärfuss, um documento que tem
como objetivo primeiro estabelecer um centro de nanotecnologia em Minas
Gerais ligado às universidades e instalar uma fábrica em Minas de
microcondutores, que é um projeto de extrema relevância para o Brasil
do ponto de vista da política comercial, do desenvolvimento
tecnológico e da política industrial.
Outro aspecto importante que quero ressaltar é
o aspecto cultural. Quero dar uma atenção especial ao setor cultural,
principalmente dar oportunidade aos talentos de nova geração que
necessitam o apoio oficial para a promoção.
Escritor?
Graciliano Ramos, Machado de Assis.
Compositor?
Noel Rosa
Música?
Brasileira, MPB sou apreciador.
Esporte?
Futebol
Time?
Flamengo
Gostaria de declarar nesta entrevista a
importância do trabalho realizado por nossos dois Cônsules-Gerais na
Suíça, o Embaixador Armando Sérgio Frazão em Zurique, que acabou de
assumir, e o Embaixador Armando Vítor Boisson Cardoso, em Genebra,
ambos excelentes colegas e amigos. Os consulados que ambos dirigem têm
cumprido um papel muito importante no antendimento à comunidade
brasileira, e a Embaixada em Berna tem-se coordenado com eles
intensamente. Hoje o Brasil tem cerca de 4 milhões de brasileiros que
vivem fora do país, e o Itamaraty está estruturado para dar o apoio e
assistência a esta comunidade que vive no exterior. A nossa rede
consular e diplomática está instruída, se habilitando e se equipando
para cada vez mais exercer da melhor maneira possível esta
responsabilidade que é uma responsabilidade do Estado, assistir e
apoiar nossos brasileiros que necessitam de apoio. O Itamaraty tem hoje
uma Subsecretaria-Geral chefiada por um Embaixador experiente, dedicado
exclusivamente a este trabalho de articulação e apoio ao cidadão
brasileiro que vive no exterior.
Muito Obrigado!
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